Publicidade, “capetalismo” e excrementos.
Segunda-feira, Abril 28th, 2008O capitalismo é uma coisa feia. Ele sobrevive da desigualdade, da exploração das pessoas e da acomodação da maioria.
Ele nivela tudo; por baixo, claro. Mediocridade é lei, vai ver é por isso que Big Brother e semelhantes fazem tanto sucesso: é nossa chance de nos destacarmos, mesmo - e apesar - sem fazer esforço algum.
A publicidade é o supra-sumo do capitalismo. É a sua forma de nos lembrarmos a dinâmica fundamental do seu funcionamento, o consumo. Nós não podemos parar de consumir. Não consumo é não existência.
O capitalismo e a publicidade usam as pessoas como meio, isto é, somos peças no xadrez do mercado num jogo que se repete e se repete e se repete…quem ganha eu não afirmo com certeza; o sistema, que sobrevive, talvez. Quem perde é quem está no tabuleiro.
Por isso me são estranhas essas tentativas de publicitários e outros de justificarem, ou tentarem justificar, suas ações, e lembrando que a publicidade pode ser social e ambientalmente responsável, que pode ser “ética”.
Toda, quase todas, profissão te sua deontologia, isto é, seu código de ética. Mas deontologia não significa automaticamente a afirmação de que as atividades de uma profissão são éticas. Ético é o que pode ser universalizado, logo, publicidade ou capitalismo são por excelência anti-éticos, pois suas promessas não podem ser universalizadas. Aliás, se fossem, o planeta estaria perdido - se já não está.
A publicidade pode ser(creio que estar seria um verbo melhor, mas fica estranha a leitura) responsável no âmbito do social e do ambiental, lógico. Campanhas que promovam a consciência e a sensibilização sócio-ambiental são sempre bem-vindas. Entretanto, são poucas em relação a enorme quantidade de publicidade feita para nos vender produtos e serviços, ou melhor, conceitos, promessas, concepções da vida, características que desejamos, sentimos que almejamos. O que é irônico, além de tudo isso, é que essas campanhas responsáveis estão buscando reparar justamente as consequências de outras campanhas publicitárias.
A publicidade pode estar responsável e ética, mas ela não é responsável e ética por natureza.
Nós, publicitários, temos como função gerar lucro. Lucro é anti-ético pois gera(ou provém de) desigualdade e exclusão social. Publicidade não pode ser ética, ora.
(ok, poderia ser discutido que a função do publicitário pode ser gerar imagem de marca, pode ser gerar experiência ou impressão de marca, mas no fim, tudo isso é feito para gerar lucro para a empresa que detém a marca, certo?)
Claro que isso não significa chutar a boca do balão e mentir e tentar manipular e enganar os consumidores. A publicidade pode e deve, na medida do possível e do sistema, fazer o que é melhor para todos. Ela não precisa invocar a selvageria do sistema que vivemos e agir como tal, ela pode incitar ao consumo responsável, aos cuidados com a natureza, a consciência política, a atenção a exclusão social. Mas ainda assim, para sobreviver o sistema, devemos gerar lucro, e isso não pode ser esquecido nem ignorado.
Portanto, caros colegas publicitários, deixem de frescura e hipocrisia e enfiem logo os dois pés na merda. É isso que nós fazemos: ganhamos dinheiro e atendemos necessidades do capitalismo. Nesse sistema podemos fazer o melhor possível, mas por natureza, usamos as pessoas, não se enganem e nem tentem enganar os outros. Que ridículo é ver alguém enfiando o pé na merda e com vergonha - e/ou esperteza - de enfiar o outro pé para não se sujar.
Faço um pedido: com o ventilador ligado, quem me ajuda atirar os excrementos?


